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quinta-feira, 1 de julho de 2010

Modo de Usar-se




"Coitada, foi usada por aquele cafajeste". Ouvi essa frase na beira da praia, num papo que rolava no guarda-sol ao lado. Pelo visto a coitada em questão financiou algum malandro, ou serviu de degrau para um alpinista social, sei lá, só sei que ela havia sido usada no pior sentido, deu pra perceber pelo tom do comentário. Mas não fiquei com pena da coitada, seja ela quem for.

Não costumo ir atrás desta história de "foi usada". No que se refere a adultos, todo mundo sabe mais ou menos onde está se metendo, ninguém é totalmente inocente. Se nos usam, algum consentimento a gente deu, mesmo sem ter assinado procuração. E se estamos assim tão desfrutáveis para o uso alheio, seguramente é porque estamos nos usando pouco.

Se for este o caso, seguem sugestões para usar a si mesmo: comer, beber, dormir e transar, nossas quatro necessidades básicas, sempre com segurança, mas também sem esquecer que estamos aqui para nos divertir. Usar-se nada mais é do que reconhecer a si próprio como uma fonte de prazer.

Dançar sem medo de pagar mico, dizer o que pensa mesmo que isso contrarie as verdades estabelecidas, rir sem inibição – dane-se se aparecer a gengiva. Mas cuide da sua gengiva, cuide dos dentes, não se negligencie. Use seu médico, seu dentista, sua saúde.

Use-se para progredir na vida. Alguma coisa você já deve ter aprendido até aqui. Encoste-se na sua própria experiência e intuição, honre sua história de vida, seu currículo, e se ele não for tão atraente, incremente-o. Use sua voz: marque entrevistas.
Use sua simpatia: convença os outros. Use seus neurônios: pra todo o resto.

E este coração acomodado aí no peito? Use-o, ora bolas. Não fique protegendo-se de frustrações só porque seu grande amor da adolescência não deu certo. Ou porque seu casamento até-que-a-morte-os-separe durou "apenas" 13 anos. Não enviuve de si mesmo, ninguém morreu.

Use-se para conseguir uma passagem para a Patagônia, use-se para fazer amigos, use-se para evoluir. Use seus olhos para ler, chorar, reter cenas vistas e vividas – a memória e a emoção vêm muito do olho. Use os ouvidos para escutar boa música, estímulos e o silêncio mais completo. Use as pernas para pedalar, escalar, levantar da cama, ir aonde quiser. Seus dedos para pedir carona, escrever poemas, apontar distâncias. Sua boca pra sorrir, sua barriga para gerar filhos, seus seios para amamentar, seus braços para trabalhar, sua alma para preencher-se, seu cérebro para não morrer em vida.

Use-se. Se você não fizer, algum engraçadinho o fará. E você virará assunto de beira de praia.


sexta-feira, 2 de abril de 2010

Não Sou do Seu Rebanho


O óbvio é que não faz parte do meu mundo
E por não ser desse rebanho
É apenas mais um estranho

Para o amor não há nada disso
Então é desperdício não te amar
E dividir o meu tempo com você

Tudo tão triste e engraçado
Quem não quero, tenho por perto
Quem eu amo, pertence à distância
E mora do outro lado

Amigos e sorrisos na mesa
Seu olhar uma súplica e um pedido
Que não mastigo nem como sobremesa

Sou de agito e muita gente
Você, banho-maria deprimente

Seus lábios, muita conversa
Minha garganta, tanta gritaria
Seus passos, nenhuma pressa
Minhas pernas, constante correria

Nos conhecemos há anos
Mas por "baixo dos panos"
Os segredos de liquidificador
São apenas enganos

Se não faço o que sua vontade quer...
Se não sigo o caminho que manda...
É porque sou uma mulher que não deita...
Sou mulher que anda...

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

O Mal do Século




Uma vez Renato Russo disse com uma sabedoria ímpar:
"Digam o que disserem, o mal do século é a solidão".
Pretensiosamente digo que assino embaixo sem dúvida alguma. Parem pra notar, os sinais estão batendo em nossa cara todos os dias.
Baladas recheadas de garotas lindas, com roupas cada vez mais micros e transparentes, danças e poses em closes ginecológicos, chegam sozinhas e saem sozinhas. Empresários, advogados, engenheiros que estudaram, trabalharam, alcançaram sucesso profissional e, sozinhos.

Tem mulher contratando homem para dançar com elas em bailes, os novíssimos "personal dance", incrível. E não é só sexo não, se fosse, era resolvido facilmente, alguém duvída?

Estamos é com carência de passear de mãos dadas, dar e receber carinho sem necessariamente ter que depois mostrar performances dignas de um atleta olímpico, fazer um jantar pra quem você gosta e depois saber que vão "apenas" dormir abraçados, sabe essas coisas simples que perdemos nessa marcha de uma evolução cega. Pode fazer tudo, desde que não interrompa a carreira, a produção.

Tornamos-nos máquinas e agora estamos desesperados por não saber como voltar a "sentir", só isso, algo tão simples que a cada dia fica tão distante de nós.
Quem duvida do que estou dizendo, dá uma olhada no site de relacionamentos ORKUT, o número que comunidades como: "Quero um amor pra vida toda!" , "Eu sou pra casar!" até a desesperança da "Nasci pra ser sozinho!" Unindo milhares, ou melhor, milhões de solitários em meio a uma multidão de rostos cada vez mais estranhos, plásticos, quase etéreos e inacessíveis.
Vivemos cada vez mais tempo, retardamos o envelhecimento e estamos a cada dia mais belos e mais sozinhos. Sei que estou parecendo uma solteirona infeliz, mas pelo contrário, pra chegar a escrever essas bobagens (mais que verdadeiras) é preciso encarar os fantasmas de frente e aceitar essa verdade de cara limpa. Todo mundo quer ter alguém ao seu lado, mas hoje em dia é feio, démodé, brega. Alô gente! Felicidade, amor, todas essas emoções nos fazem parecer ridículos, abobalhados, e daí?
Seja ridículo, não seja frustrado, "pague mico", saia gritando e falando bobagens, você vai descobrir mais cedo ou mais tarde que o tempo pra ser feliz é curto, e cada instante que vai embora não volta mais (estou muito brega!), aquela pessoa que passou hoje por você na rua, talvez nunca mais volte a vê-la, quem sabe ali estivesse à oportunidade de um sorriso a dois.
Quem disse que ser adulto é ser ranzinza, um ditado tibetano diz que seu problema é grande demais, não pense nele e se ele é pequeno demais, pra quê pensar nele. Dá pra ser um homem de negócios e tomar iogurte com o dedo ou uma advogada de sucesso que adora rir de si mesma por ser estabanada; o que realmente não dá é continuarmos achando que viver é out, que o vento não pode desmanchar o nosso cabelo ou que eu não posso me aventurar a dizer pra alguém:
"vamos ter bons e maus momentos e uma hora ou outra, um dos dois ou quem sabe os dois, vão querer pular fora, mas se eu não pedir que fique comigo tenho certeza de que vou me arrepender pelo resto da vida".

domingo, 4 de janeiro de 2009

Agora, em Silêncio!




Sabe, acho que ninguém vai entender. Ou, se entender, não vai aprovar. Existe em nossa época um paradigma que diz: enquanto você me der carinho e cuidar de mim, eu vou amar você. Então, eu troco o meu amor por um punhado de carinho e boas ações. Isso a gente aprende desde a infância: se você for um bom menino, eu vou lhe dar um chocolate. Parece que ninguém é amado simplesmente pelo que é, por existir no mundo do jeito que for, mas pelo que faz em troca desse amor. E quando alguém, por alguma razão muito íntima, pára de dar carinho e corre para bem longe de você? A maioria das pessoas aperta um botão de desliga-amor, acionado pelo medo e sentimentos de abandono, e corre em direção aos braços mais quentinhos. E a história se repete: enquanto você fizer coisas por mim ou for assim eu vou amar você e ficar ao seu lado porque eu tenho de me amar em primeiro lugar. Mas que espécie de amor é esse? Na minha opinião, é um amor que não serve nem a si mesmo e nem ao outro.
Eu também tenho medo, dragões aterrorizantes que atacam de quando em quando, mas eu não acredito em nada disso. Quando eu saí de uma importante depressão, eu disse a mim mesma que o mundo no qual eu acreditava haveria de existir em algum lugar do planeta! Haveria de existir! Nem que este lugar fosse apenas dentro de mim... Mesmo que ele não existisse mais em canto algum, se eu, pelo menos, pudesse construi-lo em mim, como um templo das coisas mais bonitas que eu acredito, o mundo seria sim bonito e doce, o mundo seria cheio de amor e eu nunca mais ficaria doente. E, nesse mundo, ninguém precisa trocar amor por coisa alguma porque ele brota sozinho entre os dedos da mão e se alimenta do respirar, do contemplar o céu, do fechar os olhos na ventania e abrir os braços antes da chuva. Nesse mundo, as pessoas nunca se abandonam. Elas nunca vão embora porque a gente não foi um bom menino. Ou porque a gente ficou com os braços tão fraquinhos que não consegue mais abraçar e estar perto. Mesmo quando o outro vai embora, a gente não vai. A gente fica e faz um jardim, um banquinho cheio de almofadas coloridas e pede aos passarinhos não sujarem ali porque aquele é o banquinho do nosso amor, o nosso grande amigo. Para que ele saiba que, em qualquer tempo, em qualquer lugar, daqui a quantos anos, não sei, ele pode simplesmente voltar, sem mais explicações, para olhar o céu de mãos dadas. No mundo de cá, as relações se dão na superfície. Eu fico sobre uma pedra no rio e, enquanto você estiver na outra, saudável, amoroso e alto-astral, nós nos amamos. Se você afundar, eu não mergulho para te dar a mão, eu pulo para outra pedra e começo outra relação superficial. Mas o que pode ser mais arrebatador nesse mundo do que o encontro entre duas pessoas? Para mim, reside aí todo o mistério da vida, a intenção mais genuína de um abraço. Encontrar alguém para encostar a ponta dos dedos no fundo do rio - é o máximo de encontro que pode existir, não mais que isso, nem mesmo no sexo. Encostar a ponta dos dedos no fundo do rio. E isso não é nada fácil, porque existem os dragões do abandono querendo, a todo instante, abocanhar os nossos braços e o nosso juízo. Mas se eu não atravessar isso agora, a minha arte será uma grande mentira, as minhas histórias de amor serão todas mentiras, o meu livrinho será uma grande mentira porque neles o que impera mais que tudo é a lealdade, feito um Sancho Pança atrás do seu louco Dom Quixote, é a certeza de existir um lugar, em algum canto do mundo, onde a gente é acolhido por um grande amigo. É por isso que eu tenho de ir. E porque eu não quero passar a minha existência pulando de pedra em pedra, tomando atalhos de relações humanas. Eu vou mergulhar com o meu amigo, ainda que eu tenha de ficar em silêncio, a cem metros de distância. Eu e o meu boneco de infância, porque no meu mundo a gente não abandona sequer os bonecos que foram nossos amigos um dia. Agora em silêncio, tentando ensinar dragões a nadar.

domingo, 26 de outubro de 2008

As Walkírias

Pega meu corpo de boneca
inflável
— língua nos meus dedos devagar.
Aproveita que não éramos
uma Penélope recalcada
que perdeu seu homem pra
uma feiticeira.
Nós éramos a feiticeira.
Pega meu corpo de boneca
inflável
— palavrões nos meus ouvidos.
Queríamos ser a
Maria Magdalena
pra ter a certeza
que conseguiríamos corromper
o cristo.
Nós éramos a prostituta.
Pega meu corpo de boneca
inflável
e me acaricia na nuca,
que eu não era uma
Camélia prostrada
e a Branca de Neve
que conhecemos era só
mais um vírus na internet.
Nós éramos a maçã.
Pega meu corpo de boneca
inflável
— me morde nas coxas.
Que eu não tinha as neuras
de Mrs. Dalloway
nosso dia nos possuía em 52h e
e no nosso cardápio
não entrava baratas.
Nós éramos as donas da casa.
Pega meu corpo de boneca
inflável
— me espanca, faz o que quiser.
Pois há muito estupraram o amor
e não havia nada
que sobrevivesse à cama,
nosso front, nossa trincheira,
com estratégias jamais reveladas
em revistas femininas.
Pega meu corpo de boneca
inflável
que não era hora de se pensar.
A cama
o transe
e o nada.
sucumbido ali no meu corpo:
um homem
como muitos outros homens.
E se por acaso você não me obedecesse
e me largasse sozinha por aí,
encontraria um outro dia
o sorriso sensual
da soberba indiferença,
que sacode os ombros e
dá as costas decotadas no
passo afirmado do salto.
Nós éramos Walkírias.
éramos guerreiras
nós éramos as Walkírias.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

O que eu aprendi com os relacionamentos anteriores?




... Sambas novos, com certeza!
Meu visual itinerante, alterado com vestes diversas multicores.
A salvar bêbados, levantar de comas, dar tapas na cara...
Diversas posições próprias e impróprias para a plenitude;
Livros, dores únicas, lágrimas ímpares.
Lugares aos quais não sei retornar...
A implorar perdão,
a implorar casamento,
a negar o sexo,
a, enfim, dar o sexo.
E a perder o nexo[!]
Tornar- me uma artista in off das relações.
Várias línguas: falo todas!
A debochar de meu pranto e achá-lo cômico.
A chorar escondida, segurar o chôro e a rir das confusões.
Visões e olhares, aos milhares, impossíveis de diagnosticar...
A dar- me e a egoisticar-me.
A ver o amor presente no ódio, no bofetão.
A escrever num caderno de trás pra frente e a nunca ler jornais de frente pra trás.
A negar meu desejo
e a me arrepender
a voltar atrás chorando
a me jogar aos pés e a me levantar, impassível. E conformada.
Deixar passar as perplexidades e aceitar e assumir a normalidade na loucura.
A ver o amor presente no abandono.
A entra e a sair(,a escutar promessas eternas de amor , aceitar, assumir e depois deixar a pessoa ir...) ainda viva e, o que é maior, renascida, deslumbrada!

A agir de forma incoerente e ineficaz
a negar tudo aquilo o que eu mais queria e acredito
de mim e de minha vida
a fazer tudo ao contrário a me virar do avesso e me comer por dentro
e assim, descobrir o sabor de ser comida
a sentir e a suportar as sensações devas(t)sadoras de ser de alguém
.
Sim, tudo aprendi.
E falta tudo, ainda, é verdade.
Em verdade, o que mais e melhor aprendi,
é a loucura em todos nós
e em nisso tudo não há nada de coerência
é o amor quem nos devora e nos cala.
Em nós manda.
Se a vida é louca e nada posso contra ela,
desisti de planejar.
Quanto mais experiências, mais inocência.
Quanto mais vivi, mais loucura vi.
Menos planos e menos certezas de tudo o que eu mais queria.
Tornei- me passiva.
Louca, lúcida e passiva.
Estou tão imensamente lúcida que enlouqueci.
Com os relacionamentos anteriores aprendi
a incoerência.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Pensamentos Soltos




Ontem resolvi fazer aquela faxina, tentando jogar fora o que não me servia mais. Foi aí que foleando algumas folhas de um caderno, me deparei com um desabafo que fiz alguns dias atrás sobre uma pessoa que um dia foi um grande amigo, ou eu achei em determinado momento que fosse. É estranho como as pessoas tem o poder de deixar a gente pra baixo, eu particulamente me apego muito fácil a seres humanos nada humanos e vivia me surpreendendo com atos que eu não esperava. Hoje, continuo me apegando mas nada me surpreende mais, nem a morte da Dercy! Rs
As pessoas próximas a mim, as vezes confundem minha amizade com amor. Eu amo todo mundo mesmo, e com muita intensidade, porque se não tiver intensidade em tudo que eu faço, não vai ter graça nenhuma viver! Quando é amigo, eu sinto afeto, tenho carinho, desejo o bem, eu amo e muito, mas isso não que dizer que eu tenha algum interesse além disso, sexual, casual, paixonite. Nada disso! Mas tudo bem, eles ainda superam! hahaha!

Bom, o texto é esse aí, e se alguém ler, parece mesmo um término de um relacionamento bem sério.
E quem disse que amizade não é um relacionamento sério?!

***

Acho que teve medo. Medo de te se entregar de forma a que eu te prendesse .
Medo de se dar de forma que eu não te largasse. Mas como todo ser humano você é feito de duas matérias. Feito de nada e feito de tudo. Feito de corpo e feito de coração. Feito de indiferença e de matéria inflamável. Feito de egoísmo e de generosidade; de mentira e verdade; de vergonha e de abertura; de receio e de loucura. É feito de ti e foi feito para mim. Quando os nossos caminhos se cruzavam, era feito à minha medida, encaixava no que sou, no que por ti respiro. Quando éramos nós no mundo em que, pela primeira vez nos cruzámos, junto àqueles que sempre à nossa volta giraram, era feito de qualquer um deles, de qualquer papel, de plástico, de cartão... qualquer material vulgar, banal e usual ... rotineiro e repetitivo. Quando nos encontrávamos fora do nosso mundo, você se tornava como todos os outros , aliás , fora do nosso mundo, eu me tornava qualquer uma, qualquer pessoa de passo apressado, mais ou menos próxima de ti. Para mim me amava, para o mundo me conhecia. Para mim eu era-te precisa, causadora de saudades, até de algum ciúme ... para o mundo você me era preciso, causador das maiores saudades e dos mais tremendos ciúmes. Saiba que para mim era o mundo ... e eu sei que , para ti, eu era uma no mundo. Chegámos a ser existências entrelaçadas. Hoje não somos nada ...